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Trocamos o calendário. Um novo ano se coloca diante de nós como uma folha em branco, cujas escritas vão aparecendo gradualmente. Muitas delas podemos compor de próprio punho, outras a vida rascunha para nós como se tivesse vontade própria. Chamemos de destino, acaso ou Deus, mas o fato é que muito do que será escrito independe diretamente da vontade de cada um. Alguns escritos já estão aparecendo durante esta primeira semana.
Um fato novo é que temos que escrever de outro jeito daqui por diante. A Língua Portuguesa foi reformada. Caretice ou não, acho que a ortografia do jeito que aprendemos na cartilha “Caminho Suave” é a que vale. Mas minha opinião sobre este tema nada conta, portanto só resta a gente se habituar.
Dois mil e nove da Era Cristã traz o primeiro Presidente afro-descendente para a nação mais poderosa do planeta. Além de imprimir democracia no papel de um país com um percentual enorme de população negra, latina e de estrangeiros, Obama traz a esperança de poder redigir naquele país mudanças muito necessárias principalmente para a economia e a política externa. Deverá cumprir o que prometeu e gerar 3.000.000 de empregos em um cenário bastante desfavorável. Cedo para criticar, mas ele se cala diante dos massacres que estão ocorrendo na Faixa de Gaza enquanto sua compatriota Condoleezza Rice os abençoa com o pretexto da necessidade de desestabilizar o Hamas.
É no mínimo revoltante imaginar aquele povo amedrontado pelas vontades bélicas de Israel, com uma área e população similar a da cidade de Guarulhos, sendo bombardeado com a conhecida tecnologia israelense e enterrando suas crianças diante da conivência do mundo todo. A ONU permite que a situação vá adiante.
Quase ironicamente, Israel determina tréguas de três horas para o povo sair às ruas, comprar alguma comida que estiver disponível e voltar aterrorizado para seus esconderijos, sem saber quem ficará vivo no próximo ataque, como uma roleta russa indesejada.
Escreverem com sangue na folha já maculada gera ainda mais ódio e revolta, feridas que nossa sociedade mais cedo ou mais tarde terá que limpar ou sofrer suas conseqüências.
Enquanto isso, na nossa província aos pés da serra, nosso ano começa com o Prefeito Nelsinho Nicolau reempossado e com muitos desafios.
Muitas chuvas desagradaram aqueles que imaginaram suas férias com sol, piscina e caminhadas com aquele entardecer típico. Voltamos ao trabalho desejando o Carnaval. Isto mesmo. Quem ainda não correu no calendário para espiar quando serão nossos festejos mais brasileiros neste ano?
A vida segue adiante, a gente vai planejando e desejando o futuro, trabalhando e assentando os tijolos para irmos materializando nossos sonhos, escrevendo no papel branco com um lápis bem suave e usando uma borracha boa para tentar reescrever o que não ficou tão bom.
Com tremas e acentos a menos, que escrevamos um texto interessante para lermos no final deste ano. Que tenhamos paz e saúde: o resto a gente corre atrás.

Confundo-me sempre com os hemisférios do cérebro. Jamais poderia ter sido neurocirurgião. Nunca acerto em qual deles mora o cálculo com a precisão ou a poesia com a música. Para mim, a poesia é companheira da música. Devem dividir compartimento, quiçá sejam a mesma coisa.
Há gente que ousa dizer que Música e Poesia são coisas distintas. Não será errôneo classificar “Vento no Litoral” como uma coisa ou outra?
“Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção...
Onde está você agora
Além de aqui, dentro de mim?”
Sob título de música, com as bênçãos tristes de Orides Fontela, o show Cristal de Nós foi materializado pelo Zezinho Só e pela Silvia Ferrante com uma profundidade e uma riqueza poético-musical que fez vibrar com notas e palavras corretas nosso pequeno grande Teatro Municipal. As paredes pediam mais, as pessoas pediam que ecoassem mais ainda mágoas, dores, ironias... Formato certo de música, poesia chamava riso e lágrima!
Imagino com curiosidade as dores, os amores, os sofrimentos pelos quais passou o trovador-maestro para poder pôr de forma tão rasgada de sinceridade os sentimentos no papel. Ainda pôde regar nas formas líricas, salpicando com notas musicais tão próprias.
Uso do Chico Buarque para viajar na imaginação. Quem sabe então, com as chuvas que temos, nossa cidade será submersa. Os escafandristas virão explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos. Sábios em vão tentarão decifrar o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização...
Encontrarão talvez poesias cristalizadas em nós que dificilmente se desfarão tão cedo.
Será que os escafandristas do Chico poderão dimensionar a tristeza e o sofrimento dos anos de chumbo? Será que poderão entender a diferença entre ser carneiro ou leão?
Será que saberão o que Renato Russo quis dizer com “e não protejo general de dez estrelas que fica atrás da mesa com o ... na mão”?
Ou a Elis com um bêbado, um equilibrista e com gente que partiu num rabo de foguete? Certamente entenderão que sensibilidade assim não era algo comum no nosso tempo de risadas fáceis, informações disponíveis, breves e instantâneas... Entenderão também que a esperança é equilibrista e que o show de todo artista tem que continuar?
Espero que os escafandristas não encontrem só os motivos pelos quais Zezinho chamou-se Só. Tomara que encontrem seu Juca louco da aldeia, que divertia as crianças, famintas testemunhas da sua insanidade. Que a prisão branca abra suas grades e liberte todos para o azul. Liberte para a verdade, que não podia existir no Brasil da ditadura, conforme afirmou Dilma Rousseff, narrando em primeira pessoa.
Para Zezinho, prepararam tudo às escondidas, cortaram panos em tiras para mordaças, correntes foram forjadas, acumularam bombas, algemas, decretos e prisões. Compuseram textos, discursos, desculpas esfarrapadas e rezaram para iludir os beatos, dizendo de Deus.
Pois, para mim, a voz imita um cristal, ainda que cheio de nós, mergulhados na personalidade da Sílvia. Maturidade, presença no palco de uma estrela refletindo luz própria.
Saí daquele teatro quando o tempo já era findo. Passos loiros e morenos indo embora. Sobrou para mim um pacote típico de tarefa de casa para pensar, absorver e digerir. O domingo passou com pele de cordeiro, mas era um lobo dos grandes.
Para terminar, que me sejam emprestadas as palavras do poeta: “Sinto em minha boca um gosto de saliva e de solidão” e, assim como ele, quero fazer uma alegoria a uma cidade que se perde dentro de mim.
Haja escafandrista para mergulhar em cada poço de solidão... Tomara que consigam voltar à superfície.
Foi por e-mail que recebi a mensagem do meu companheiro das aulas do Colégio Anglo no início dos anos 90, hoje o médico Rodrigo Falconi, a incumbência de coletar uma montanha de dados sobre a vida do meu avô. Ele prepara um belo trabalho de reconstituição histórica e de memória para nossa comunidade, agora em formato de livro, com biografias de diversos sanjoanenses que dão nomes às nossas ruas. Meu avô João Sibin, de quem herdo dois dos meus nomes, é um deles.
Desde que nasci ouço dos meus pais histórias de dor sobre os seus. Saudades, perda, sofrimento. Especialmente no caso do meu avô paterno, vitimado por doença longa e dolorosa que marcou muitos dos seus anos de vida. Isto fez com que o ato de falar nele fosse um modo de reavivar a dor, de dar força à saudade, à dor dos filhos que viram seu pai perder forças ano após ano, até seu falecimento. E também que eu, como neto, de forma consciente ou não, não pudesse falar muito nele.
Foi pela responsabilidade que me fora passada pelo Rodrigo, que eu pude desfazer este mito em mim, de uma dor intensa vivida pela minha família. E ainda ganhei de presente poder admirar e amar mais ainda uma senhora de 86 anos, que me narrou todas as histórias com lágrimas de saudade nos olhos, às vezes de dor, em primeira pessoa. Minha avó Luiza.
Foi ótimo ouvir as histórias das paqueras na praça, do namoro, do casamento, das visitas da família, dos tempos que morava em Andradas. Foi bonito demais ouvir relatos de honestidade, de fé, de vivências do passado, quando uma palavra dada valia mais que dinheiro, e virtudes tão necessárias, como sinceridade e amor verdadeiro, eram mais freqüentes. Foi bom saber dos relatos sobre os meus tios-avós, de ambos os lados, pela ótica dela.
Foi triste saber de tudo o que aconteceu durante a doença do meu avô. Sofrimento estampado no rosto, minha avó narrava com dor cada detalhe na mesa da sala de jantar da casa em que todos vivemos tantos momentos importantes, onde hoje mora minha tia Angélica. Ah, como foi duro para mim ouvir tudo o que aconteceu depois da morte do meu avô tão jovem! Como uma questão de sucessão familiar pôde fazer com que uma viúva e oito filhos perdessem o patrimônio do marido e passassem de uma condição social a outra do dia para a noite, e ainda mais, que esta perda dupla servisse de motivação dobrada para o trabalho e para a reconstrução de tudo: família, dignidade e futuro.
Ouvi um relato sincero de como saber perdoar.
Vi na minha avó, minha amiga de viagens e minha querida para sempre, um rosto diferente, como se as histórias do seu baú pudessem ser restauradas, polidas, apreciadas por alguém a quem aquele passado também pertence.
Do ponto de vista profissional, ouvi um testemunho de trabalho, determinação, mesmo nas dificuldades, de duas gerações que construíram seus patrimônios partindo de muito pouco. Pensei que todo o trabalho em prol da manutenção do patrimônio de uma geração para a outra é mais que necessário, é fundamental.
Orgulhei-me mais do que nunca de ter recebido o nome que tenho. É para eu não me esquecer do tipo de gente a que pertenço, como dizem nossos parentes da Itália... Trago nele a força do meu bisavô Olívio, do meu avô João e do meu pai João Olívio.
Do ponto de vista familiar, aprendi que a força da mãe para o esteio do lar é mesmo definitiva e soberana.
No que concerne a minha vida pessoal, entendi que o meu coração transborda gratidão, amor e respeito por esta senhora que, além de religiosa e conservadora, é inteligente, alegre, sensível. E, tendo sido capaz de enfrentar com coragem e fé todas as dificuldades, ainda hoje e para sempre, consegue enxergar com olhos cheios de esperança a beleza desta vida.
Obrigado, querida!