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Terra Blog

01.02.09

Eu e Água



Horas atrás eu estava neurótico tentando escapar do trânsito parado de São Paulo e do cheiro enfumaçado de uma marginal completamente congestionada. Por alguns instantes tive certeza que eu perderia um compromisso que não me esperaria.
Agora estou apertado numa poltrona, vendo uma telinha que insiste em me mostrar que estou exatamente sobre Recife. O bicho metálico aponta para o Atlântico e dá algumas referências: 911 km/h, 10058 pés de altitude e 08:45 h para o destino.

Querendo desviar o pensamento e fazer as horas passarem mais rápido, penso no mundo de água que há aqui embaixo. Penso na água que hidrata, que destrói, que limpa e suja. Que dá vida, que engasga e afoga. Salgada, doce, com gás, da Prata, boricada, contaminada. Da lágrima, do joelho, dos olhos e às vezes dos pulmões. Benta. Do Pantanal, do Amazonas e do Tietê (que eu quero esquecer, pelo menos neste instante).
Aquela que falta, aquela que sobra. Que faz brotar e inunda. Que põe medo e atrai. Na forma de geleiras ou do vapor da chaleira.
Maresia corrosiva, espetáculo golpeando as pedras da praia ou serena num lago com peixes aos pés da serra.
Prefiro pensar na leveza e lembro-me de uma amiga que foi viver para o mar. Tomou esta mesma rota aérea para ir viver o amor, hoje nas brisas do Mediterrâneo. Anos atrás falávamos sobre nossos planos e ela me disse bem calma que queria que a música “Eu e Água” fosse um tema para a sua vida.

“A água arrepiada pelo vento
A água e seu cochicho
A água e seu rugido
A água e seu silêncio
A água me contou muitos segredos
Guardou os meus segredos
Refez os meus desenhos
Trouxe e levou meus medos
A grande mãe me viu num quarto cheio d’água
Num enorme quarto lindo e cheio d’água
E eu nunca me afogava
O mar total e eu dentro do eterno ventre
E a voz de meu pai, voz de muitas águas
Depois o rio passa,
Eu e água, eu.

Cachoeira, lago, onda, gota
Chuva miúda
Fonte, neve e mar
A vida que me é dada
Eu e água, eu.
A água lava as mazelas do mundo
E lava a minha alma
Lava a minha alma...”

Agora já meio longe da costa de Pernambuco, aperto a tecla “PLAY” e a voz da Bethânia rega com gotas de calma os meus pensamentos aquáticos. De novo. De novo. De novo...
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  • Postado em 15:55:16

11.01.09

FOLHA EM BRANCO



Trocamos o calendário. Um novo ano se coloca diante de nós como uma folha em branco, cujas escritas vão aparecendo gradualmente. Muitas delas podemos compor de próprio punho, outras a vida rascunha para nós como se tivesse vontade própria. Chamemos de destino, acaso ou Deus, mas o fato é que muito do que será escrito independe diretamente da vontade de cada um. Alguns escritos já estão aparecendo durante esta primeira semana.
Um fato novo é que temos que escrever de outro jeito daqui por diante. A Língua Portuguesa foi reformada. Caretice ou não, acho que a ortografia do jeito que aprendemos na cartilha “Caminho Suave” é a que vale. Mas minha opinião sobre este tema nada conta, portanto só resta a gente se habituar.

Dois mil e nove da Era Cristã traz o primeiro Presidente afro-descendente para a nação mais poderosa do planeta. Além de imprimir democracia no papel de um país com um percentual enorme de população negra, latina e de estrangeiros, Obama traz a esperança de poder redigir naquele país mudanças muito necessárias principalmente para a economia e a política externa. Deverá cumprir o que prometeu e gerar 3.000.000 de empregos em um cenário bastante desfavorável. Cedo para criticar, mas ele se cala diante dos massacres que estão ocorrendo na Faixa de Gaza enquanto sua compatriota Condoleezza Rice os abençoa com o pretexto da necessidade de desestabilizar o Hamas.
É no mínimo revoltante imaginar aquele povo amedrontado pelas vontades bélicas de Israel, com uma área e população similar a da cidade de Guarulhos, sendo bombardeado com a conhecida tecnologia israelense e enterrando suas crianças diante da conivência do mundo todo. A ONU permite que a situação vá adiante.
Quase ironicamente, Israel determina tréguas de três horas para o povo sair às ruas, comprar alguma comida que estiver disponível e voltar aterrorizado para seus esconderijos, sem saber quem ficará vivo no próximo ataque, como uma roleta russa indesejada.
Escreverem com sangue na folha já maculada gera ainda mais ódio e revolta, feridas que nossa sociedade mais cedo ou mais tarde terá que limpar ou sofrer suas conseqüências.
Enquanto isso, na nossa província aos pés da serra, nosso ano começa com o Prefeito Nelsinho Nicolau reempossado e com muitos desafios.
Muitas chuvas desagradaram aqueles que imaginaram suas férias com sol, piscina e caminhadas com aquele entardecer típico. Voltamos ao trabalho desejando o Carnaval. Isto mesmo. Quem ainda não correu no calendário para espiar quando serão nossos festejos mais brasileiros neste ano?
A vida segue adiante, a gente vai planejando e desejando o futuro, trabalhando e assentando os tijolos para irmos materializando nossos sonhos, escrevendo no papel branco com um lápis bem suave e usando uma borracha boa para tentar reescrever o que não ficou tão bom.
Com tremas e acentos a menos, que escrevamos um texto interessante para lermos no final deste ano. Que tenhamos paz e saúde: o resto a gente corre atrás.

  • criado por  worldtraveller27 criado por worldtraveller27
  • Postado em 20:19:00

25.12.08

RÉVEILLON

Mais um Natal se passou.
Recebi um vídeo por e-mail bem negativista dia destes, cheio das teorias da conspiração. Afirmava que o Natal é uma farsa, que Jesus jamais existiu, que o Cristianismo todo é um plágio do culto ao Sol que vinha desde muito antes, já no Egito antigo. Devo dizer a verdade, me chocou profundamente. Procurei ver outros temas em seguida para tirar aquelas idéias da cabeça, não por não poder pensar sobre isto (pensar sempre faz bem), mas porque golpeou as raízes daquilo em que acredito e de certa forma vivenciei durante este ano que termina agora, lá em Israel.
Além desta parte, trazia o tema “onze de setembro”. Justificava por A mais B que toda a catástrofe acontecida nos Estados Unidos não era fruto de ataques terroristas e sim de explosivos colocados estrategicamente nas Torres Gêmeas e no Pentágono, fruto de um golpe do governo Bush para poder faturar muitos e muitos dólares, de comum acordo com a família Bin Laden. Não tenho meu veredicto estabelecido sobre este tema.
O mais impressionante foi quando argumentava sobre as guerras. Demonstrava como os Estados Unidos propositalmente instigaram seus inimigos imaginários para poderem cavar participação nas duas guerras mundiais, e ainda mais, Vietnã e Iraque.
Acredito que existam mais mistérios entre o céu e a terra do que é capaz de julgar nossa vã filosofia, mas prefiro neste final de ano me limitar a pensamentos menos bélico-catastróficos e admitir que sinto um certo alívio por este Natal já ter se passado. Posso ser chamado de ranzinza, mas detesto o fuzuê brega natalino. Prefiro o próximo feriado.
Réveillon tem tudo de bom.
Tem gente de branco, tem o calor do afeto dos amigos, tem a leveza das bolhas do champanhe. É descompromissado, tem sorrisos de esperança, com alguma pontada de recordação daquilo que não deu certo – mas é legal de qualquer forma, pois o ruim já ficou para trás.
Gosto dos fogos, da contagem regressiva, de pôr o pé na água do mar, se for o caso. Gosto dos abraços espontâneos no meio dos fogos de todas as cores.
Fechamos 2008 como um ano de chuvas agressivas, que castigou o nosso Brasil. Cada um de nós tem suas alegrias e suas tristezas particulares para contabilizar.
Abrimos 2009 com a esperança que a tão falada crise internacional seja somente mais um daqueles exageros conspiratórios, e que seja acima de tudo um ano leve, que os amigos se vejam mais vezes, que o trabalho renda mais frutos, que os amores se encontrem pela alma, que durem para sempre. Que a saúde seja fortalecida. Que o coração que estiver dolorido, encontre razões para estar bem, e poder ter a certeza que há sempre um momento oportuno para recomeçar.
  • criado por  worldtraveller27 criado por worldtraveller27
  • Postado em 08:08:45

15.12.08

NÓS, CRISTAIS E CÉREBROS

 

Confundo-me sempre com os hemisférios do cérebro. Jamais poderia ter sido neurocirurgião. Nunca acerto em qual deles mora o cálculo com a precisão ou a poesia com a música. Para mim, a poesia é companheira da música. Devem dividir compartimento, quiçá sejam a mesma coisa.
Há gente que ousa dizer que Música e Poesia são coisas distintas. Não será errôneo classificar “Vento no Litoral” como uma coisa ou outra?
“Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção...
Onde está você agora
Além de aqui, dentro de mim?”

Sob título de música, com as bênçãos tristes de Orides Fontela, o show Cristal de Nós foi materializado pelo Zezinho Só e pela Silvia Ferrante com uma profundidade e uma riqueza poético-musical que fez vibrar com notas e palavras corretas nosso pequeno grande Teatro Municipal. As paredes pediam mais, as pessoas pediam que ecoassem mais ainda mágoas, dores, ironias... Formato certo de música, poesia chamava riso e lágrima!
Imagino com curiosidade as dores, os amores, os sofrimentos pelos quais passou o trovador-maestro para poder pôr de forma tão rasgada de sinceridade os sentimentos no papel. Ainda pôde regar nas formas líricas, salpicando com notas musicais tão próprias.
Uso do Chico Buarque para viajar na imaginação. Quem sabe então, com as chuvas que temos, nossa cidade será submersa. Os escafandristas virão explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos. Sábios em vão tentarão decifrar o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização...
Encontrarão talvez poesias cristalizadas em nós que dificilmente se desfarão tão cedo.
Será que os escafandristas do Chico poderão dimensionar a tristeza e o sofrimento dos anos de chumbo? Será que poderão entender a diferença entre ser carneiro ou leão?
Será que saberão o que Renato Russo quis dizer com “e não protejo general de dez estrelas que fica atrás da mesa com o ... na mão”?
Ou a Elis com um bêbado, um equilibrista e com gente que partiu num rabo de foguete? Certamente entenderão que sensibilidade assim não era algo comum no nosso tempo de risadas fáceis, informações disponíveis, breves e instantâneas... Entenderão também que a esperança é equilibrista e que o show de todo artista tem que continuar?
Espero que os escafandristas não encontrem só os motivos pelos quais Zezinho chamou-se Só. Tomara que encontrem seu Juca louco da aldeia, que divertia as crianças, famintas testemunhas da sua insanidade. Que a prisão branca abra suas grades e liberte todos para o azul. Liberte para a verdade, que não podia existir no Brasil da ditadura, conforme afirmou Dilma Rousseff, narrando em primeira pessoa.
Para Zezinho, prepararam tudo às escondidas, cortaram panos em tiras para mordaças, correntes foram forjadas, acumularam bombas, algemas, decretos e prisões. Compuseram textos, discursos, desculpas esfarrapadas e rezaram para iludir os beatos, dizendo de Deus.
Pois, para mim, a voz imita um cristal, ainda que cheio de nós, mergulhados na personalidade da Sílvia. Maturidade, presença no palco de uma estrela refletindo luz própria.
Saí daquele teatro quando o tempo já era findo. Passos loiros e morenos indo embora. Sobrou para mim um pacote típico de tarefa de casa para pensar, absorver e digerir. O domingo passou com pele de cordeiro, mas era um lobo dos grandes.
Para terminar, que me sejam emprestadas as palavras do poeta: “Sinto em minha boca um gosto de saliva e de solidão” e, assim como ele, quero fazer uma alegoria a uma cidade que se perde dentro de mim.
Haja escafandrista para mergulhar em cada poço de solidão... Tomara que consigam voltar à superfície.

 

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  • Postado em 19:55:45

28.11.08

DONA LUIZA

 

Foi por e-mail que recebi a mensagem do meu companheiro das aulas do Colégio Anglo no início dos anos 90, hoje o médico Rodrigo Falconi, a incumbência de coletar uma montanha de dados sobre a vida do meu avô. Ele prepara um belo trabalho de reconstituição histórica e de memória para nossa comunidade, agora em formato de livro, com biografias de diversos sanjoanenses que dão nomes às nossas ruas. Meu avô João Sibin, de quem herdo dois dos meus nomes, é um deles.
Desde que nasci ouço dos meus pais histórias de dor sobre os seus. Saudades, perda, sofrimento. Especialmente no caso do meu avô paterno, vitimado por doença longa e dolorosa que marcou muitos dos seus anos de vida. Isto fez com que o ato de falar nele fosse um modo de reavivar a dor, de dar força à saudade, à dor dos filhos que viram seu pai perder forças ano após ano, até seu falecimento. E também que eu, como neto, de forma consciente ou não, não pudesse falar muito nele.
Foi pela responsabilidade que me fora passada pelo Rodrigo, que eu pude desfazer este mito em mim, de uma dor intensa vivida pela minha família. E ainda ganhei de presente poder admirar e amar mais ainda uma senhora de 86 anos, que me narrou todas as histórias com lágrimas de saudade nos olhos, às vezes de dor, em primeira pessoa. Minha avó Luiza.
Foi ótimo ouvir as histórias das paqueras na praça, do namoro, do casamento, das visitas da família, dos tempos que morava em Andradas. Foi bonito demais ouvir relatos de honestidade, de fé, de vivências do passado, quando uma palavra dada valia mais que dinheiro, e virtudes tão necessárias, como sinceridade e amor verdadeiro, eram mais freqüentes. Foi bom saber dos relatos sobre os meus tios-avós, de ambos os lados, pela ótica dela.
Foi triste saber de tudo o que aconteceu durante a doença do meu avô. Sofrimento estampado no rosto, minha avó narrava com dor cada detalhe na mesa da sala de jantar da casa em que todos vivemos tantos momentos importantes, onde hoje mora minha tia Angélica. Ah, como foi duro para mim ouvir tudo o que aconteceu depois da morte do meu avô tão jovem! Como uma questão de sucessão familiar pôde fazer com que uma viúva e oito filhos perdessem o patrimônio do marido e passassem de uma condição social a outra do dia para a noite, e ainda mais, que esta perda dupla servisse de motivação dobrada para o trabalho e para a reconstrução de tudo: família, dignidade e futuro.
Ouvi um relato sincero de como saber perdoar.
Vi na minha avó, minha amiga de viagens e minha querida para sempre, um rosto diferente, como se as histórias do seu baú pudessem ser restauradas, polidas, apreciadas por alguém a quem aquele passado também pertence.
Do ponto de vista profissional, ouvi um testemunho de trabalho, determinação, mesmo nas dificuldades, de duas gerações que construíram seus patrimônios partindo de muito pouco. Pensei que todo o trabalho em prol da manutenção do patrimônio de uma geração para a outra é mais que necessário, é fundamental.
Orgulhei-me mais do que nunca de ter recebido o nome que tenho. É para eu não me esquecer do tipo de gente a que pertenço, como dizem nossos parentes da Itália... Trago nele a força do meu bisavô Olívio, do meu avô João e do meu pai João Olívio.
Do ponto de vista familiar, aprendi que a força da mãe para o esteio do lar é mesmo definitiva e soberana.
No que concerne a minha vida pessoal, entendi que o meu coração transborda gratidão, amor e respeito por esta senhora que, além de religiosa e conservadora, é inteligente, alegre, sensível. E, tendo sido capaz de enfrentar com coragem e fé todas as dificuldades, ainda hoje e para sempre, consegue enxergar com olhos cheios de esperança a beleza desta vida.
Obrigado, querida!

  • criado por  worldtraveller27 criado por worldtraveller27
  • Postado em 19:32:26